Sincericídio – Como Matar Amigos e Desconhecidos com a ‘Verdade’

“Nossa, essa foto é de quando? Três anos atrás? Ah, só dois meses?! Nossa, você tá bem melhor na fotografia, não? Uau, mas bem melhor na fotografia. E olha que era foto de máquina antiga, então nem rolou Photoshop. Essa vida corrida de hoje em dia acaba com a gente, não?”. E foi assim que minha mãe matou uma visita.

Toda mundo é um assassino em potencial e, para isto acontecer, basta abrir a boca. Não estou falando em crimes cometidos em atos orais mal-sucedidos ou mordidas de vampiro em pescoço, mas na forma mais antiga de se matar alguém: o sincericídio. Uma dose certa de verdade é capaz de acabar com a vida de uma pessoa.

Digo que minha mãe matou uma visita porque a senhora, retratada na foto, ficou realmente mal. Foi como se aquela sequência de frases desastradas tivesse feito com que ela percebesse o quanto envelheceu em pouco tempo. A tal fulana morreu em menos de dois meses. Há quem diga que foi em um acidente de carro, eu ainda acho que foi minha mãe.

Todo mundo gosta de “gente que fala o que pensa”. O problema é que gente pensa muita merda. Somos humanos, cometemos erros de julgamento. Muitas vezes, a sinceridade é usada pra disfarçar a grosseria. A pessoas diz, com aquele alívio incomum do “pronto, falei”, e quem ouve ainda deve agradecê-la por ter falado a verdade. Que nada. Muitas coisas não passam de ponto de vista e se o que você pensa não vai trazer um bem comum entre você e a vítima, não diga. Se falar algo vai apenas fazer com que o outro se sinta mal em troca do teu alívio, fique quieto, compre um sorvete e seja feliz.

Há dois tipos de sinceridade:

Sinceridade boa: quando um amigo te previne de sair de casa com um cachecol no verão porque está ‘friozinho’, quando tua mãe te avisa que você é feio demais pra aparecer na tv e que por isso deve fazer faculdade, quando o Windows pergunta “tem certeza que deseja desligar o computador” e você sabe que quer ficar mais um pouco ou quando a bula do remédio que você usa te avisa antes que os efeitos colaterais podem causar perda da libido.

Sinceridade ruim: quando o garçon pergunta se eu quero MAIS uma vodka! Mais uma? Quem é ele pra julgar o quanto eu bebo? E a moça do supermercado, que pergunta: “É só isso, senhor?”. Meu orçamento é curto, mas ela não precisa me lembrar disso. A sinceridade bancária também é ruim, porque ela não te trata com carinho. Em vez de dizer que você está devendo, ela fala, com todas as letras e numeros, o tamanho da sua dívida.

Eu, por exemplo, estou a beira de um sincerício sempre que o Gmail diz: “Você não tem mensagens novas”. Sou salvo da morte sempre que chega um SPAM pra me lembrar que eu existo digitalmente.

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Nenhuma resposta para “Sincericídio – Como Matar Amigos e Desconhecidos com a ‘Verdade’”

  1. .leticia
    15/06/2009 em 1:01 pm #

    Espero nunca ter matado alguém com a minha sinceridade, mas também não me considero pertencente ao grupo que se autoproclama “sincero demais”, como se isso fosse a maior das virtudes. Acho que os “sinceros demais” se sentem bem em humilhar os outros publicamente.

    • Nana
      27/11/2009 em 10:36 pm #

      na mosca. conheço umas pessoas assim, e, ás vezes, fico assim quando bebo demais. mas aí é coisa de bêbado.

      • Anônimo →
        20/05/2011 em 7:17 pm #

        coisa de bêbado nada , rsrsr é puro sincerísismo kkkkk

  2. Patricia Santana →
    15/06/2009 em 3:00 pm #

    Neste final de semana cometi esta gafe. Estava contrariada em uma viagem com um casal de amigos do meu namorado. A garota que tem 21 anos e uma filha de 3 anos disse que iria fazer aniversário no dia 20 de junho e que faria 22 anos. Eu, doce e super bem humorada, perguntei: SÓ 22 ANOS? Desconcertada, a garota disse com um sorriso amarelo: Sim, porque parece menos?
    Preferi encerrar a conversa com uma gargalhada. Não seria tãooooo cruel. Não iria descontar o ódio de não estar comemorando o dia dos namorados à sós!

  3. Cafeina
    15/06/2009 em 7:11 pm #

    ai, eu nem posso contestar, sou uma sincericida crônica, já perdi muita coisa por isso… rs

  4. Gisele →
    16/06/2009 em 12:11 am #

    Nunca esqueço de uma frase que ouvi da boca do José Saramago, na última Bienal do Livro: “Esse negócio de ficar falando pela frente é muito chato. Quem fala se constrange, quem ouve tb se constrange. Então o bom mesmo é falar pelas costas que ninguém sai chateado”.
    Dois recortes sobre o sincericídio na tv: recente propaganda de cerveja, q começa com a pergunta ‘Vc gostaria q os homens dissessem td o q pensam?’. E o outro, mais antigo, uma pequena série que passava no Fantástico com o ator Luis Fernando Guimarães fazendo papel de supersincero. Ótemo.

  5. Cay →
    16/06/2009 em 12:58 am #

    Eu morri de rir com esse post!
    Lembrei de uma conhecida que comentou com uma amiga que se a carreira de modelo do filho dessa amiga não dessa certo, ele poderia virar garoto de programa pq ele é ‘muito bonito mesmo’!
    Apesar dos pesares, eu ainda acho sinceridade uma virtude!
    bjo, lindo!

  6. marcela
    16/06/2009 em 5:25 pm #

    eu nao sei diferenciar muito o que eu digo e o que eu nao digo, mas estou melhorando com o tempo

  7. Rodrigo
    20/06/2009 em 3:54 pm #

    Quando as pessoas que vc achar ser o dono da verdade, isso é uma sinalização que a barreira da boa sinceridade foi ultrapassada? Acho que pratiquei o sincericídio.

  8. xana →
    25/05/2010 em 12:21 pm #

    nem tudo o k se pensa se deve dizer é um facto mas alivia .as pessoas nao estao preparadas para levar com as verdades e depois só se arranjam enimigos e antipatias mais vale mentir e guardar a sinceridade total para o aconchego dos nossos

  9. dama de cinzas
    04/07/2010 em 10:04 am #

    Adorei o post! Tava fazendo uma pesquisa no Google sobre esse tema e acabei caindo aqui… Muito bom o texto, quem sabe me serve de inspiração…

    Beijocas

  10. Dani Furtado →
    02/06/2011 em 9:07 pm #

    Perfeito!

    mais pura realidade… as pessoas confundem ser sincero com ofensivo.
    EU msm, mts vezes fico na corda bamba com minha sinceridade.
    è preciso ser mais cauteloso.

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